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Assédio Moral no Trabalho no Estado de Goiás: Uma retrospectiva das iniciativas

O Dia Estadual de Combate e Prevenção ao Assédio Moral e Sexual nas relações de trabalho (21 de junho) foi instituído pela Lei Nº 20.470 de 26 de abril de 2019. Para celebrar a data, resgato o histórico das ações no Estado de Goiás, conteúdo que compõe o projeto de trabalho da equipe de Psicologia do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Estado de Goiás (eP- CEREST Goiás).

Em 2010, lotada na Coordenação de Atenção Psicossocial da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás / Gerência de Gestão de Desenvolvimento de Pessoas (CAPSES / GGDP / SES-GO) tive conhecimento da Lei Nº 17.161, de 30 de setembro de 2010, que dispunha sobre a proibição de assédio moral no âmbito da administração pública estadual. O Decreto Nº 9.837, de 23 de março de 2021, realça em sua instituição do código de ética “o servidor” e “a alta administração”, e dele depreende-se que os comportamentos relativos ao assédio moral indesejados que devem ser simplesmente evitados. Mas há mais de uma década antes a CAPSES já realizava atendimentos de servidores que se queixavam de assédio moral no trabalho que até então era proibido.

O contexto da época era de instalação das Organizações Sociais na gestão de Unidades de Saúde no Estado de Goiás. Os casos suspeitos de assédio moral  aumentavam, bem como o número de atendimento aos servidores. Ainda em 2010, a Seção do Ministério da Saúde em Goiás solicitou auxílio da SES-GO para a identificação de práticas de assédio moral no trabalho. Representando a CAPSES, busquei conhecer as práticas de gestão em outros órgãos públicos do Estado de Goiás para saber quais ações acerca do enfrentamento do assédio moral eram realizadas no Estado. Sem registros de ações sistematizadas, confeccionei uma adaptação do questionário sobre assédio moral no trabalho, com base nos conteúdos acessados do trabalho realizado pelo Professor Dr. José Roberto Heloani, referência no país na temática do assédio moral no trabalho (FREITAS, HELOANI & BARRETO, 2008).

Em seguida foi criado um grupo de trabalho na SES-GO para abordar essa temática, a CAPSES redigiu uma carta aberta em meados de 2012 ao referido grupo acerca da escuta psicológica para orientar a discussão da construção do fluxograma de atendimento a servidores da SES envolvidos em situações de violência no trabalho. A partir de então iniciei um processo de leituras e estudos que culminou na realização do I Encontro sobre Assédio Moral no Trabalho na SES-GO, com a presença do prof. Dr. Heloani.

Após 4 anos da publicação da Lei Nº 17.161/2010 que proibia o assédio moral, uma nova lei foi publicada em Goiás: a Lei Nº 18.456, de 30 de Abril de 2014, que revogou a anterior. Foram vetados integralmente pela Governadoria os parágrafos 8º, 9º e 10º do artigo 5º do autógrafo de lei, que diz respeito às penalidades impostas à prática do assédio moral, observada a reincidência e a gravidade dos fatos apurados (ALEGO, 2014). No texto atual a palavra “proibição” referida à prática de assédio moral é retirada do caput da Lei que disporá então sobre a prevenção e a punição de assédio moral no âmbito da administração estadual. O artigo 15 desta mesma Lei institui o Dia Estadual de Luta contra o assédio moral, a ser celebrado anualmente, no dia 2 de maio.

A partir de 2015, tendo aceitado o trabalho para compor a eP do CEREST Goiás assumi a responsabilidade pela estruturação do trabalho referente ao agravo/doença “transtornos mentais relacionados ao trabalho”, acompanhou o desenvolvimento do trabalho de atendimento de casos suspeitos de assédio moral pela equipe da CAPSES ao longo dos anos. A referida equipe foi considerada juntamente com a Ouvidoria da SES e outras áreas, destaque na implementação de ações relativas aos casos de assédio moral no trabalho diante de outros órgãos públicos em Goiás.

Em dezembro de 2020, a eP do CEREST Goiás foi solicitada pela Gerência de Vigilância Ambiental e Saúde do Trabalhador (GVAST) da Superintendência de Vigilância em Saúde (SUVISA) da SES-GO para redigir uma nota técnica para assédio moral no trabalho. A partir de então, os documentos anteriormente produzidos na CAPSES foram recuperados.

Nesse ínterim, a coordenação de Vigilância em Saúde do Trabalhador (CVSAT), questionou a pertinência de se fiscalizar as denúncias de assédio moral no trabalho e buscou auxílio junto ao CEREST para compilar argumentos legais para esta atuação inovadora. A eP/CEREST apresentou proposta de questionário de riscos psicossociais no trabalho para ser utilizado nas fiscalizações em saúde do trabalhador e depois foi convidada a ministrar curso sobre riscos psicossociais no trabalho, ocasião em que o questionário foi discutido e reavaliado. A eP do CEREST Goiás enviou uma minuta da nota em janeiro de 2021 para contribuições das colegas da CAPSES e da CVSAT – GVSAT.

Na sequência a eP do CEREST Goiás foi convidada a participar de uma reunião com a GGDP e informa-se dos avanços de seus processos de trabalho e a aproximação com a CAPSES é retomada, novas leituras e estudos são feitos para compor a construção da nota técnica solicitada. Em março de 2021, deu-se início à revisão do fluxograma de atendimento de casos suspeitos de assédio moral no trabalho da CAPSES.

Considerando a história de desenvolvimento do tema na SES-GO, entendemos que o percurso transcorrido com seus acontecimentos, demandas e avanços foi também uma resposta para a necessidade garantir a universalidade enquanto princípio da Política Estadual de Saúde do Trabalhador, consoante ao Art. 3 da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (BRASIL, 2012), que considera:

 A Saúde é um direito fundamental de todos os trabalhadores, urbanos e rurais, independente da sua inserção no mercado de trabalho e do vínculo empregatício no setor formal ou informal da economia, inclusive os que estão em situação de desemprego, cabendo ao Estado garantir as condições indispensáveis ao seu pleno exercício e o acesso à atenção, promoção, prevenção, proteção, recuperação, reabilitação e a assistência à saúde em todos os níveis de complexidade (GOIÁS, 2012).

Após período trabalhoso de leitura, estudos, escrita e revisões, a eP/CEREST-GO realizou uma Oficina de Consulta pública da proposta de nota técnica, convidando especialistas e diversos profissionais envolvidos no tema. Após revisões e acréscimos necessários, foi publicada a Portaria Nº 2859/2022 no Diário Oficial do Estado de Goiás: a Nota técnica passa a ser instrumento legitimado pela administração pública que estabelece medidas de prevenção, enfrentamento e tratamento do Assédio Moral no Trabalho no Estado de Goiás. Com base nesta nota técnica a eP-CEREST Goiás tem atendido às demandas de supervisão técnico-pedagógica e clínico-institucional para os CERESTs envolvidos com a temática.

Referências:

ALEGO. Portal da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás. Vetado parcialmente projeto sobre assédio moral. Notícia de 08 de Maio de 2014 às 17:11. Disponível em:https://portal.al.go.leg.br/noticias/63809/vetado-parcialmente-projeto-sobre-assedio-moral Acesso em: 07/06/2023.

BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria Nº 1.823, de 23 de agosto de 2012. Institui a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Diário Oficial da União – Ano CXLIX, Nº 165, Seção I, p. 46-51 – Brasília-DF, sexta-feira, 24 de agosto de 2012.

  . Ministério da Saúde. Portaria Nº 1.206 de 24 de outubro de 2013. Altera o cadastramento dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador no Sistema de Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (SCNES). Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 de outubro de 2013. Seção 1, p. 67.

FREITAS, Maria Ester; HELOANI, Roberto; BARRETO, Margarida. Assédio moral no trabalho. Coleção Debates em Administração. São Paulo: Cencage Learning, 2008.

GOIÁS. Lei Nº 17.161, de 30 de setembro de 2010. Dispõe sobre a proibição de assédio moral no âmbito da Administração Direta e Indireta do Estado de Goiás, revogada pela Lei Nº 18.456, de 30 de abril de 2014.

______. Portaria Nº 323, de 03 de outubro de 2012. Aprova a Política Estadual de Saúde do Trabalhador – PEST – para Goiás. Goiânia: Secretaria de Estado de Saúde, 2012. Diário Oficial de 11 de outubro de 2012, Ano 176 – Diário Oficial / GO Nº 21.448.

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Acolhimento e solidariedade no trabalho: um exemplo de imigração do Brasil para França – conversa com a chef Alessandra Montagne no restaurante “Nosso”.

Quando alguém busca imigração, algumas palavras e expressões chaves vêem em seu bojo: trabalho, melhores condições de existência, ser cidadão. A chef franco-brasileira Alessandra Montagne, nascida no dia internacional da mulher, na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro e criada no interior de Minas Gerais, mudou-se para Paris, para provar outra vida possível de amar e trabalhar, os pilares para uma saúde mental razoavelmente equilibrada, segundo Freud. Em março de 2023 pude me reencontrar com Alessandra, durante um serviço de alta gastronomia francesa com entrada, prato principal e sobremesa em seu restaurante Nosso, no 13º distrito de Paris. Esse bate-papo cheio de revelações sobre sua trajetória de trabalho nos dá exemplos de como sua saúde mental pôde ser recuperada na experiência de imigração. Quando chegou em Paris, aos 22 anos, a jovem carregava marcas da violência, vítima de abandono quando ainda era um bebê, de bullying no internato onde estudou e ainda vítima das agressões do primeiro marido no Brasil. Com uma história de tantas experiências traumáticas, ela não poderia imaginar que se tornaria uma chef de cozinha reconhecida por estrelas da gastronomia francesa e por tantas personalidades, como o presidente da França, Emmanuel Macron. Durante seu processo de ascensão, Alessandra direcionou suas energias ao trabalho e contou como era dividir a vida na cozinha e de mãe, que cuidava do filho no quarto que alugava ao lado do restaurante onde trabalhava. Ainda que certificada por diplomas franceses, de atitude profissional em cozinha e pâtisserie (WOWWOMAN, 2023), à medida que crescia enquanto profissional, sentia-se por vezes acometida da síndrome do impostor, muito estressada pela expectativa de reconhecimento (BIAL, 2023). Dentre as várias situações que a colocaram à prova de suas capacidades, antes ou durante os apertos da vida, ela me contou que teve um acometimento em seu corpo – perda auditiva parcial – que ela atribui às intensas vivências de angústia que transbordaram em determinado momento. Material que caberia uma notificação de transtornos neuróticos, do estresse e somatoformes relacionados ao trabalho. Entretanto, do sofrimento, ela se recriou com o trabalho “porque sofrer faz parte da vida e a maneira como você gera seu sofrimento define a pessoa que você é”, conta Alessandra após cuidar de suas feridas emocionais. Alessandra buscou psicoterapia e pôde aprender pelos novos caminhos que trilhou durante os percalços da pandemia. O processo de escrita de sua história, facilitou com que ela pudesse “fazer as pazes” com os conflitos pelos quais passou. A chef acaba de lançar o cativante livro: “Minha cozinha de coração”, lançado em fevereiro de 2023. Nele ela relata, com simplicidade e beleza a realidade de condições de vida no interior de Minas Gerais onde foi criada pelos avós e depois em Paris, toda uma trajetória de parcerias generosas de profissionais que contribuíram em sua formação de trabalho. Dentre vários relatos presentes nas páginas iniciais de seu livro, consta a do grande chef Alain Ducasse, francês de renome internacional, que a considera uma cozinheira notável e bem mais que isso: “uma mulher que mostra o caminho. Aquele de uma cozinha de amor. De força de vida”. Gradiva, aquela que anda, ou aquela que brilha ao caminhar (FREUD, 1907/1996; FREUD, 1907/2015). Dentre tantas lições, observamos no contato com Alessandra, uma trabalhadora consciente dos obstáculos que teve sendo mulher, pobre e negra num continente caucasiano. Ao longo de sua trajetória, coletamos atitudes que fizeram valer sua conduta de inclusão da diversidade nos empreendimentos realizados na área da saúde nutricional no período da pandemia. A chef ingressou numa escola de naturopatia que passou a ocupar em sua mentalidade o uso dos recursos sem desperdício (RFI, 2022). A chef pode ser vista cozinhando para refugiados ou em eventos populares – como a tradicional festa anual do centenário jornal L’Humanité – ou debates na Unesco sobre alimentação sustentável e de respeito ao meio ambiente (EICHENBERG, 2019). O tratamento dispensado aos colegas de trabalho é de cumplicidade e amor. Gestos simples ao cumprimentar as pessoas, resolver pequenos problemas que surgem, inclusive sua presença acolhedora em momentos de entrevista para emprego no restaurante. Alessandra me convidou para participar deste momento, junto de uma jovem parisiense, na ocasião perguntei por que aqui com Alessandra? Em outras palavras, a jovem muito segura respondeu, em outras palavras: “porque é ela”. Esta tarde compartilhada no Nosso, com Alessandra, faz perceber com quem tem o privilégio de conhecê-la, o modo como ela entende seu trabalho que é “fazer brilhar a luz de todos na mesma intensidade e que suas luzes se harmonizem entre si” (GOMES, 2023, p. 171). O nome do restaurante reflete seu percurso e reconhecimento de um trabalho coletivo. Ela compara o pessoal com um verdadeiro tesouro, de joias mais ou menos buriladas. Dentre os momentos marcantes em sua carreira, ela cita quando cozinhou para as crianças do Morro Dois Irmãos, comunidade onde nasceu no Vidigal. O reconhecimento das desigualdades sociais, o estranhamento diante do problema da fome no Brasil, fazem Alessandra ressignificar seu trabalho, que é o de “nutrir de amor” tanto os corpos como os corações. Alessandra observa: “hoje em dia, na França, a gente joga uma quantidade surreal de comida fora e financeiramente não podemos mais continuar vivendo assim, enquanto muitos morrem de fome. Por respeito a essas pessoas não podemos jogar comida fora”. E assim, vemos que a solidariedade só funciona mesmo quando se mostra na realidade que vai tomando espaço. No podcast “Exploradoras, mulheres pelo mundo” (2023), vemos que a chef vence o machismo e o sexismo para conquistar um espaço até então sempre ocupado por homens. A discriminação existe, e ela também sofreu com isso, além de ser mulher negra e estrangeira. Em conversa com Adriana Mabilia (2023) Alessandra compartilha uma experiência de como se portou com uma cliente – que nem sempre tem razão. A cliente havia feito uma reserva para 12 horas e só chegou às 12:40 h. A cliente foi contactada três vezes por chamadas telefônicas, mas não atendeu. A sua mesa foi cedida a um cliente passante, que não havia feito reserva. A funcionária Martina respondeu educadamente que como não obteve resposta nas tentativas de contato, a mesa havia sido disponibilizada. A cliente questionou como essa conduta era possível, dizendo rispidamente que era médica e começou a tratar mal Martina. Alessandra veio ao encontro da situação e disse que “estudos de medicina não dispensam a senhora de ser educada”. A cliente saiu, mas voltou três dias depois, como se nada tivesse acontecido. O carinho e afeto com que Alessandra trabalha, ainda que tenha sido firme em sua colocação, com o clamor pelo respeito no trato com as pessoas. A razão que a cliente parece ter encontrado é a de que seu restaurante é um lugar que as pessoas se respeitam e querem voltar, pois tem princípios de cuidado que sustentam cada ação cotidiana. O marketing de ações de responsabilidade social quando feitos apenas com este propósito sem a contrapartida necessária, é só marketing e não sustenta a imagem institucional analisada com mais critério (MACÊDO & cols., 2008). A chef que trabalha seriamente contra o desperdício, nos conta que para se fazer uma baguete são necessários mais de 150 litros de água. Sua criatividade para usar os alimentos metaforiza com as ações que nós dispomos fazer com os ingredientes que a vida nos traz. O modo como a chef é vista pelos seus pares e jovens ingressantes no mercado de trabalho é algo da ordem do real. Para usar uma expressão lacaniana, prata da casa francesa de psicanálise, ficar só na imaginarização (BACELAR & COUTINHO, 2022) aprisiona os sujeitos a um discurso capitalista de venda da própria imagem. As conquistas exitosas de Alessandra simbolizam sua vida real, não vem de um conceito criado para ser vendido. Ser chefe – em qualquer área de atuação – sem ser autoritária é uma condição para fazer face ao mal-estar das desigualdades sociais. É uma iniciativa de tratar dos sintomas da clínica do trabalho contemporâneo. A barreira da língua, da cultura, da distância da família, são elementos que nos fazem pensar nas condições de vida e claro, trabalho, enquanto centralidade da vida, no Brasil. Desde 2017, quando morei em Paris, acompanho o trabalho de Alessandra em seu primeiro restaurante Tempero. O trabalho desta chef solaire (ou ensolarada, calorosa) como foi chamada em seu livro, vai para além da oferta de sua comida, com ela podemos absorver ensinamentos, degustar de uma boa conversa que inspira novas práticas de gestão, de produção de alimentos e seus usos. Suas contribuições vão muito além das receitas que ela compartilha no livro. Ela nos deixa como aprendizado que a paixão pelo seu métier foi uma “boia de salvação” (GOMES, 2023, p. 212), e que faz sentido buscar essa paixão, onde quer que ela possa se realizar. Ganhos para a França, país que deu tantas oportunidades à Alessandra, que também tanto se beneficiou com a imigração. Do lado de cá do oceano, terminamos este relato com uma questão: como fazer para que o Brasil seja um lugar bom de se buscar as paixões de bem-viver o trabalho? Seguimos temperando nossas reflexões sobre o fenômeno das migrações brasileiras para outros países com uma frase da entrevistada “é preciso assumir seu passado para que seu presente seja mais doce”. As elaborações que a escrita e a psicoterapia assumiram na história de trabalho Alessandra me fazem lembrar a epígrafe de Schopenhauer no capítulo “poder e desenvolvimento humano” de Zaleznik e deVries (1981, p. 51), com a qual encerro este texto: As pessoas dotadas de grandes e esplêndidas qualidades não sentem muita dificuldade em admitir seus erros e fraquezas. Tais pessoas os encaram como algo pelo qual pagaram, ou até chegam ao ponto de pensar que, longe de se sentirem envergonhadas por tais fraquezas, estão concedendo-lhes a honra de possuí-las.

Referências:

BACELAR, Joyce; COUTINHO, Denise. A noção lacaniana de imaginarização: a clínica psicanalítica e seus
desdobramentos no social. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. 25 (01) • Mar 2022
https://doi.org/10.1590/1415-4714.2022v25n1p83.5
BIAL, Pedro. Conversa com Bial / Alessandra Montagne / Programa Completo. YouTube. 05 de maio de 2023. Disponível em: https://youtu.be/idZ5kZRZ1g8 Acesso em: 08/05/2023.
EICHENBERG, Fernando. A incrível história da chef brasileira Alessandra Montagne, de Poté (MG) para as
cozinhas de Paris, 2019. Disponível em: https://fernandoeichenberg.com/a-incrive-historia-da-chef-brasileiraalessandra-montagne-de-pote-mg-para-as-cozinhas-de-paris. Acesso em: 09/05/2023.
EXPLORADORAS, MULHERES PELO MUNDO – Alessandra Montagne. Entrevistadora: Adriana Mabilia.
Produção Gabriel Saraiva. 08 de maio de 2023. Podcast. Disponível em:
https://cultura.uol.com.br/radio/programas/exploradoras/2023/05/08/3_exploradoras-mulheres-pelo-mundoalessandra-montagne.html. Acesso em: 09/05/2023
FREUD, Sigmund. (1907 [1906]/1996) Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. IX. Rio de. Janeiro: Imago, 1996.
_________. (1907/2015). O delírio e os sonhos na Gradiva. In: . Obras completas, volume 8: O delírio e os sonhos na Gradiva,. Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906 -1909). São Paulo: Companhia da Letras. Tradução: Paulo César de Souza.
GOMES, Alessandra Montagne. De rio à paris: ma cuisine de couer. Textes Laurène Petit. Photographes Maki
Manoukian. Flammarion, Paris, 2023. ISBN: 978-2-0804-1271-3. nº d’édition: 554122.
MACÊDO, Kátia Barbosa; OLIVEIRA, Alberto; FARIAS, Keila Mara de Oliveira; SANTOS, Elise Alves; SIQUEIRA,
Ana Tereza Elias; SOUZA, Jamaile. R. Os programas de gestão ambiental a partir da percepção dos trabalhadores: um estudo em organizações goianas. In: Kátia Barbosa Macêdo. (Org.). Gestão Ambiental e Organizações: Interfaces Possíveis. 1ed. Goiânia: Editora da UCG, 2008, v. , p. 31-100.
RFI. Rádio France Internacional. “Tudo se reaproveita”, diz chef brasileira Alessandra Montagne que está
conquistando os franceses. Publicado em 10/02/2022. Acesso em: 08/05/2023.
ZALESNIK, Abraham; deVRIES, Manfred F. R. Kets. Poder e desenvolvimento humano. In:
. O poder e a
mente empresarial. Biblioteca Pioneira de Administração e Negócios. Tradução: Regina Chiquetto e Oswaldo Chiquetto. Livraria Pioneira Editora. São Paulo, 1981, pp. 51-69.
WOWWOMAN. Chef, restaurant owner, survivor, Paris, France. Extraordinary Women and their stories.
Disponível em: https://www.wowwomaan.com/chef-restaurant-owner-survivor-paris-france Acesso em: 09/05/2023.

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Salto alto: um agravo para a saúde da trabalhadora

Embora os sapatos de salto alto estejam na moda há décadas para o público feminino, sua história revela que o acessório surgiu no século 16 como peça do vestuário masculino! A ideia de ganhar alguns centímetros de altura respondia ao desejo de mostrar poder e autoridade nos campos de batalha de guerras na Ásia. O primeiro salto alto da história fazia parte de calçados militares, como explica o historiador Greg Jenner. Os cavaleiros combatentes cavalgavam sobre a cela, e se levantavam para atirar com seus arcos e flechas. Isso significava que precisavam de um salto para se manterem equilibrados sobre o estribo (BBC, 2022). 

A ideia se espalhou pelo Ocidente há quase cinco séculos, quando o então xá da Pérsia, conhecido como Abbas, o Primeiro, enviou um grupo de emissários para a Europa. Os homens europeus queriam vestir calçados de salto alto para emular a força dos persas, e a rainha Elizabeth 1ª (1533-1603) começou a usá-los para parecer mais masculina (BBC, 2022). 

Curioso escutar a história dessa mulher, que ao que tudo indica foi a primeira a calçar saltos altos, em determinado momento foi declarada filha ilegítima, pois o casamento de seus pais fora anulado, e portanto, a princesa então viveria sem acesso ao trono. Somente em 1543, ela seria recolocada na linha de sucessão. De outra forma, também não era esperado que Elizabeth fosse rainha da Inglaterra, pois ela tinha dois meios-irmãos: Maria e Eduardo. Ambos subiram ao trono inglês, mas morreram sem herdeiros e por isso, Elizabeth foi declarada rainha em 1558, após o falecimento da rainha Maria I. 

O historiador Jenner, autor citado pela BBC News (2022), afirma que “É um pouco mais tarde, no começo do século 17, que começamos a ver saltos usados de forma generalizada, começando pelos homens, para parecerem mais masculinos e durões”. O rei Luís 14 [monarca da França de 1643 a 1715] começa a usar sapatos com saltos, porque ele era relativamente baixo, e ficou famoso por usar saltos vermelhos — que depois viriam a inspirar o design de sapatos de [Christian] Louboutin, no fim do século 20. O respaldo do rei francês significou o início da explosão do salto alto na Europa, como explica o historiador. “De repente, todo mundo estava usando salto alto na corte [francesa]” (BBC, 2022).

Foi em 1860 que o salto se torna “erótico” para as mulheres à medida em que passou a ser usado na pornografia da época. Esta tendência se fortaleceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando mulheres chamadas de “pin-ups” estamparam cartazes e revistas em poses sensuais, usando salto alto.

Marilyn Monroe e a indústria cinematográfica hollywoodiana tiveram enorme influência na promoção do salto alto como símbolo de sensualidade, glamour e beleza. Depois dos anos 1940, em pesquisa de 2017, liderada por David M. G. Lewis, da Universidade Murdoch, na Austrália, concluiu-se que o uso de saltos realmente era considerado como algo que tornava as mulheres mais atraentes. 

Este impacto, no entanto, não tem nada a ver com os pés — mas, sim, com o movimento provocado pelo salto no restante do corpo feminino, em especial na curvatura lombar. “É possível perceber se uma mulher está usando salto alto sem ver seus pés, é aquela postura, a mudança na forma de andar”, diz a cientista social Heather Morgan, que cita a recente pesquisa.

“É a mudança no formato da coluna que, na verdade, é atraente.” E é justamente com esse entendimento compartilhado que as portas para o surgimento dos agravos para a saúde das mulheres se abre. Curiosamente, os homens abandonaram os saltos. Mas a gestão da beleza para as mulheres segue firme no desequilíbrio do salto em nossos dias atuais. Podemos até fazer digressões sobre as lutas enfrentadas pelas mulheres e nos perguntamos, será que ainda calçar um salto numa rotina de trabalho compensa para a busca de empoderamento? 

Será que o movimento provocado pelo salto e curvatura da coluna são realmente belos?

(Imagem do arquivo pessoal da autora, no Centre Georges Pompidou, Paris, 2017).

Da rotina do salto à dor 

Na contemporaneidade as mulheres trabalham e muito. Em diversos locais de trabalho, o uso de salto é solicitado para que a aparência desejável e a  atratividade diante de sua imagem seja garantida. Imagine só a prescrição ou a sugestão de uso de salto alto para mulheres como condição de trabalho, seja porque a empresa defenda essa forma de apresentação, seja porque grande parte das mulheres estão aderidas “voluntariamente” e/ou inconscientemente aos saltos. Enfim, estamos aqui propondo a reflexão de fatores organizacionais e/ou psicossociais ligados ao trabalho. 

As lesões por esforços repetitivos (LER) e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) são por definição, consideradas pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2019): 

Todas as doenças, lesões e síndromes que afetam o sistema músculo esquelético, causadas, mantidas ou agravadas pelo trabalho (CID-10 G50-59, G90-99, M00-99). Em geral caracteriza-se pela ocorrência de vários sintomas inespecíficos, concomitantes ou não, que podem aparecer aos poucos, tais como dor crônica, parestesia, fadiga muscular, manifestando-se principalmente no pescoço, coluna vertebral, cintura escapular, membros superiores ou inferiores.

Embora a definição de caso para os agravos de LER/DORT inclua as afecções nos membros inferiores, o Protocolo de Complexidade Diferenciada para Dor relacionada ao trabalho, lançado pelo Ministério da Saúde em 2012 não os cita.  Sabemos que tais agravos em saúde do trabalhador são subnotificados e que a realidade rotineira de agravos em membros inferiores, em especial as decorrentes do uso contínuo do salto alto além de não ser abordada neste Protocolo, mal falamos sobre isso.  

Em Goiás (2022), os registros são de apenas 128 notificações nos últimos 5 anos (2017-2021), sendo 81% delas registradas no município de Goiânia. As ocupações dos trabalhadores que sofrem com LER/DORT distribuem-se nas categorias profissionais de alimentação (23,5%), manutenção (11,7%), educação (11%) e saúde (4%). Do total de notificações, 78% correspondem a trabalhadoras do sexo feminino, e 88% das LER/DORT acontecem em função do tempo de exposição ao risco ao longo dos anos. As evoluções dos casos apontam 56,5% de incapacidades temporárias e 19,6% de incapacidades permanentes parciais e 2,5 % incapacidade permanente total. 

 Dentre os dois sexos, as (os) trabalhadoras (es) mais afetadas (os) encontram-se na faixa etária dos 46 aos 67 anos (56,6%) e entre os 22 e 45 anos de idade, somam-se 43,3%. Embora 87% dos (as) trabalhadores (as) lesionados (as) e adoecidos (as) apresentaram limitação dos movimentos, em quase 83% dos casos não houve adoção de conduta de proteção coletiva e em 77 % não houve adoção de conduta de proteção individual. Ainda que apenas 1,5 % tenha transtorno mental associado, 95% dos casos correspondem a um diagnóstico em que a dor está presente.

As notificações de LER/DORT são todas generalizadas com o diagnóstico de exposição ocupacional a fator de risco não especificado.  Pois as classificações de G50-59, G90-99, M00-99, que incluem por exemplo, aos diagnósticos de síndrome do túnel do tarso, lesão do nervo plantar, mononeuropatias dos membros inferiores, não estão disponíveis na base de dados do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN). Embora o filtro para diagnósticos específicos de LER/DORT relacionados aos acometimentos dos membros inferiores continue sem visibilidade, sabemos informalmente, pela experiência vivida ou relatada, que a sensação corporal buscada após um dia de trabalho com o uso dos saltos é o alívio de quando retiramos os calçados de nossos pés.

Sabendo disso, fica a pergunta: será que os saltos ficarão entre nós para sempre? As celebridades, certamente, continuam fãs desta peça do vestuário, especialmente em eventos de gala, quando eles aparecem em suas versões mais altas. No entanto, fora do contexto de festividades, na rotina do dia-a-dia mais mulheres compraram tênis a partir de 2016, pela primeira vez, mais do que sapatos de salto no Reino Unido (BBC, 2022). 

A insistência na estética prevalece em discursos que consideram os saltos emblemáticos demais como símbolos de poder no imaginário, na história da cultura e da erótica para fazê-los desaparecer. Eles devem permanecer ao lado das reflexões mais críticas contra o uso abusivo da extensão forçada de altura e curvatura no corpo feminino.

O depoimento de uma mulher apaixonada pelo salto alto, tirado de um filme antigo dos arquivos da BBC, demonstra a vontade de poder submeter-se à dor para usufruir da imagem: “Acho que eu prefiro sentir muita dor e usá-los, e ficar bonita — e sofrer por isso”.

A par das escolhas individuais, da percepção e sensações psicofisiológicas pelo uso do acessório, é mister que o uso de calçados deste tipo não seja obrigatório. O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (Rio Grande do Sul), teve decisão confirmada pela 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho, em um caso no qual uma companhia operadora de telefone foi condenada a pagar R$ 120 por ano a um empregado que teve de comprar sapatos pretos para trabalhar (CONJUR, 2022). 

Para além da judicialização de ações relativas a processos trabalhistas, que envolvem prejuízos financeiros aos trabalhadores(as), sugerimos a reflexão incitando a discussão no âmbito da saúde, questionando como a estética, seja pela cor, ou pelo formato anatômico vão gerar consequências que o ressarcimento financeiro não trará de volta a saúde dos membros inferiores e lombar antes dos traumas cumulativos.

 Os profissionais da saúde concordam que os saltos não são saudáveis. Não há cor, nem formato, nem regra, cobrança implícita, informal ou secreta de condições de trabalho que justifique o agravo à saúde das mulheres. Com a psicanálise, a discussão pode ir no rumo da cultura que reforça a falicização de uma estética que veicula poder, e a dificuldade de sair dessa lógica de erotismo que implica encurvar o corpo para engrandecê-lo. Parece mesmo mais difícil que andar de salto alto, saltar sobre outros trilhos altos do empoderamento feminino.

Referências:

BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-60789452#:~:text=O%20salto%20alto%20surgiu%20como,eleg%C3%A2ncia%20feminina%20veio%20bem%20depois.&text=Tudo%20come%C3%A7ou%20por%20volta%20do,ou%20at%C3%A9%20mesmo%20antes%20disso. Acesso em: 26 de agosto de 2022.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador. Dor relacionada ao trabalho. Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares relacionados ao Trabalho. Protocolo de Complexidade Diferenciada nº 10. Saúde do Trabalhador. Brasília, 2012.

_______. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Saúde Ambiental, do Trabalhador e Vigilância das Emergências em Saúde Pública. Nota Informativa Nº 94/2019-DSASTE/SVS/MS. Orientação sobre as novas definições dos agravos e doenças relacionados ao trabalho do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Brasília, 2019.

_______. Ministério da Saúde.  Ficha de investigação LER/DORT. Disponível em: https://www.saude.go.gov.br/files/saude-do-trabalhador/cerest/fichas/DRT_LERDORT-Atual-28-01-20.pdf Acesso em: 31/08/2022. 

COFFITO. Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Resolução nº 424, de 08 de Julho de 2013 – (D.O.U. nº 147, Seção 1 de 01/08/2013). Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia.  Disponível em: https://www.coffito.gov.br/nsite/?page_id=2346 . Acesso em: 29/08/2022

CONJUR. Revista Consultor Jurídico. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2016-out-16/trabalhador-obrigado-usar-sapato-especifico-ressarcido Acesso em: 29/08/2022. 

GOIÁS. Dados de LER/DORT (2017-2021) extraídos do SINAN. Sistema Nacional de Notificação de Agravos em Saúde do Trabalhador. Disponibilizado pelo técnico em segurança do trabalho Albertino Dias Lira, do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador em 22/09/2022.

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Crônica do funcionário fantasma

É fim de ano, a cidade está vazia, o trânsito nas ruas tranquilo, o despertar da manhã surge meio caduco. Os trabalhadores que não estão em férias ou recesso perambulam em seus carros, trocam os passos cansados à espera de um novo ano que possa trazer renovação. 

Taís – trabalhadora a quem vou preservar a identidade dando este nome – dirige seu carro em direção ao trabalho presencial, depois de muito teletrabalho realizado nos períodos duros da pandemia. Sai de casa e lembra do conserto que precisa providenciar para seu carro que foi recentemente batido num certo ponto por um “motoboy”, que na verdade era um homem bem adulto, pobre, preto e mal pago e que se atropelou em cima de seu carro na pressa das entregas que precisava fazer. 

Ela vai parando nos semáforos, que fazem a coreografia da frustração. A cada quarteirão, o que estava aberto se fecha, como se estivesse esperando ela chegar perto, para então se fechar caprichosamente. Ela espera abrir o sinal verde apertando o canto da boca, aumentando suas rugas de expressão como se isso aliviasse um pouco a espera forçada.

Embora seu movimento “natural” fosse o de seguir rodando, ela ia parando, pisando no freio, para logo depois passar ao acelerador. Seu passo sob rodas queria se calcular fluido, contínuo nos pedais, mas a interrupção se impunha, um corte de luz vermelha se impunha.

O carro ao lado avança e no torpor do começo do dia Taís avança também, sem pensar aciona o acelerador, pois “o sinal abriu”. Mas um lapso de lucidez a faz olhar pra cima e ver que o maldito sinal ainda estava fechado. Era apenas um transgressor transformando o espaço coletivo conforme seu valor individual.

Sem perceber ela acaba furando o sinal vermelho, mas só o primeiro, o segundo e o terceiro foram atravessados já bastante acordada para analisar o risco a ser assumido de ganhar alguns minutos de espera ou segundos… O fantasma trans se apossou de Taís, querendo ela também seguir seu caminho transformando condições, transformando-se, pelo menos no trânsito, numa dirigente livre das amarras luminosas.

No trajeto para o prédio onde trabalha, ela se dá conta que o motorista transgressor era um colega, funcionário público que sempre vira nos arredores. Após alguns meses de observação coletiva, este homem foi identificado como aquele que “bate o ponto e vai embora”. Ele já havia sido notado anteriormente por Taís e outras colegas, aprisionadas aos ponteiros invisíveis do relógio computadorizado. 

A revelação é intimamente escandalosa, ele bate no ponto da injustiça que acidenta nosso transporte para o trabalho. Todavia, o bochicho é estranhamente silencioso, como se as pessoas não pudessem deixar de escutar a vontade própria de ter o privilégio de voltar a trabalhar em casa. Nessa altura, o teletrabalho já tinha sido extinguido após ciclos de vacinação contra a COVID 19. 

A trabalhadora dedicada, cumpridora de horário e mais que isso, realizadora de trabalhos importantes para o serviço público, se incomoda com essa espécie de liberdade torta que faz ela se deparar com aquela figura trapaceira todos os dias, burlando o sistema de frequência. 

As teorias da conspiração começam a surgir, os fantasmas primeiros são de Taís. Estava diante de seus olhos, o homem que representava os fantasmas do clientelismo: era um amigo do rei que podia executar ordens que permitissem ele não ficar para trabalhar. Batia seu ponto na ida e na volta do turno matutino e nada mais fazia para fazer jus ao salário que recebia? Não é possível, o homem devia ter um problema de saúde e foi liberado para fazer teletrabalho. Será? seu esquema não podia ser revelado, senão muitas pessoas iriam querer o mesmo. Mas houve tanta economia, e tanta gente compromissada na época do trabalho! Taís não podia ser ingênua de pensar que os funcionários seguiram fazendo suas funções quando ninguém podia ver de perto. 

Um dia ela adianta o passo para chegar ao suposto funcionário fantasma e contar ao “decrépito” (ela fala dele assim entre as quatros paredes de sua cabeça mas não ousa desrespeitá-lo a par de sua raiva despalavrada legítima) com uma suavidade estudada que ele a havia influenciado no trânsito mesmo sem saber que estava fazendo isso. Seguindo seu avanço apesar do sinal vermelho. Ele se ri, e conta ter percebido que meu carro sempre fazia o mesmo percurso que o dele. Taís passa a saber que tinha em comum com o funcionário fantasma o fato de que residiam na mesma vizinhança. Um sentimento de rejeição surge despontando como que dizendo “eu não sou como esse cara”.

O reconhecimento facial e intencional era incontornável, poucas são as pessoas que usam máscaras neste momento. Eles passam a se cumprimentar, comentam do elevador que não funciona. As oportunidades de saber o nome e o andar do prédio onde o espectro “trabalha” surgem e com ela a pergunta interior se ela deveria denunciar o funcionário fantasma que faz inveja a quem queria pelo menos o retorno da possibilidade de trabalhar no ambiente doméstico. 

Taís encerra o último dia do ano pensando nos grandes investimentos em cursos de ética que seu chefe maior tem feito ao longo dos últimos anos. Será que ele ou a mídia gostariam que ela denunciasse o fantasma suspeito? Ou seria ela apenas a testemunha de fantasmas aprisionados em casas mal-assombradas? Taís se despede do colega perguntando a ele saindo, quando ela está chegando: “Já vai?” e ele confessa seu “ato falho” programado respondendo ter esquecido o guarda-chuva no carro. É tempo de chuva, e as histórias fantasmagóricas escorrem nas bocas de lobo da cidade.

Goiânia, 29 de dezembro de 2022.

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Sobre exercer a psicologia

O dia do (a) psicólogo (a) vem aí e todo ano paramos para lembrar que durante todos os outros dias do ano, os psicólogos mantêm um compromisso comum com a qualidade dos serviços profissionais que presta à coletividade. Compromisso com a construção da cidadania, seu fundamento enquanto ciência e profissão.
O dia 27 de agosto foi escolhido para relembrar a data da regulamentação da profissão por meio da Lei nº 4.119/1962. Este ano (2022) o Brasil completa 60 anos de regulamentação da psicologia enquanto profissão. Goiás conta com 49 anos de história da criação do primeiro curso de Psicologia. Depois disso, outras tantas faculdades foram criadas e formam psicólogos que hoje são mais de 425.968 no Brasil e 12.508 em Goiás. Sendo Goiás o 11º Estado com maior número de psicólogos do país (CFP, 2022).
A psicologia como profissão tem uma história de ser revolucionária, de descolar-se da filosofia e da religião, de abandonar a ignorância e buscar um papel subversivo diante do status quo. A história da profissão é uma história de conquistas, de capacidade de transformar para além das aparências, de questionar para mudar.
A Psicologia, para além de uma profissão, mercado, sustento e emprego, representa uma identidade em que ser psicólogo é adotar um paradigma, situar-se diante princípios, forma de responsabilidade diante da vida, de olhar criticamente o mundo. Tornar-se psicólogo é perder a ingenuidade, mas ao mesmo tempo reconhecer a fragilidade diante do humano. O conhecimento cobra um investimento e a ignorância é um lugar confortável. E temos hoje tantos modismos que defendem conhecimentos tão confortáveis quanto enganosos.
O Código de Ética do Psicólogo traz em ser Artigo 1°, que é dever do psicólogo prestar serviços psicológicos utilizando “conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional” (CFP, 2005). Além disso, nossas próprias experiências de tratamento são fundamentais se quisermos nos dispor a tratar de alguém, para que assim o próprio sujeito que sofre possa forjar seu tratamento junto a este profissional em formação continuada, sempre inacabada. Todavia, a experiência não dispensa a teoria prévia, o pensamento dedutivo ou mesmo a especulação, mas força a não dispensar a observação dos fatos (SANTOS, 1987/2018).
Quem reconhece que a própria tarefa é árdua, senão impossível, desperta medo, descrença ou incômodo em quem assume o lugar perene de suposto saber e que se mete a dizer que por ter feito um curso qualquer está pronto e acabado para lidar com problemas alheios, pois teve “sua própria experiência”. Na época em que explodiu a moda coaching, parece que alguns profissionais (inclusive psicólogos!) os achavam tão sedutores no que se refere às promessas de intervenção no comportamento que passaram a se empenhar para também se denominarem coaches. Nesse sentido, Freud (1926/2014) ponderou:
Quando se levanta uma questão da física ou da química, quem sabe que não possui “conhecimento especializado” guarda silêncio. Mas se nos arriscamos a fazer uma afirmação de natureza psicológica, temos de esperar julgamento e contradição vindos de toda a parte (…). Cada qual tem sua vida psíquica, então cada qual se considera um psicólogo. Mas isso não me parece bastar como qualificação. Conta-se que uma mulher se oferecia para trabalhar cuidando de crianças e, ao lhe perguntarem se também sabia lidar com bebês, respondeu: “Claro, eu também já fui bebê”. (FREUD, 1926/2014, p. 137)

Assim, misturaram-se profissionais com alguma experiência e outros que se aventuravam a oferecer serviços ainda que sem recursos teóricos para sustentar a observação e a escuta técnica qualificada. Para muitos bastava eleger um líder da autoajuda e máximas convocatórias da felicidade para ofertar abstrações motivacionais de cunho individualista.
Logo, os psicólogos e demais profissionais de saúde mental viram sua área de competência ser infringida por propostas pós-modernas de trabalho precarizado, de gente que em sua maioria, tentando sair das condições de trabalho insatisfatórias, baseados em modismos de conteúdos questionáveis para se aventurar em “novas” propostas e antes de tudo tentar salvar a si próprio do mal-estar no mundo do trabalho.
Nesse sentido, vemos que a adesão a tal mentalidade tem forte interesse mercadológico. Grandes instituições como a Rede Globo, por exemplo, se vendeu para o Instituto Brasileiro de Coach (IBC) ao inserir uma cena em uma novela de horário nobre, “O outro lado do paraíso” (2017), para promover coaches e desfazer das terapias psicológicas. Promover tais “metodologismos” incentiva a sociedade a se colocar na contramão da defesa por profissionais competentes, responsáveis e especializados e a acreditar que podem ser substituídos por coaches, consteladores, executores de círculos integrativos, charlatães e amadores, especialmente porque tais iniciativas são trabalhos menos qualificados e mais baratos para se contratar.
Figueiredo (1997) apontou que alguns psicólogos e alguns psicanalistas menos sérios viraram conselheiros sentimentais e modelos de comportamento charmosos. Quase 20 anos após esta crítica de Figueiredo para o campo da psicologia, vemos, com o auxílio da mídia, os modismos de entendimento acerca do humano serem incorporados à vida cotidiana de variadas camadas da população. O coaching, a constelação familiar, o eneagrama, a “lei da atração”, as terapias de autoajuda, etc. convertem-se em metodologias que encobrem uma visão de homem e de mundo altamente subjetivista e individualista.
O filme, “Eu, Daniel Blake” (2016), ilustra a tendência de contratação de pessoal sem qualificação especializada para atender e avaliar a condição de saúde de um trabalhador. É sabido que lideranças atuais de hegemonia científica e política, exercidas pelos países norte-americanos e mais recentemente pelos latino-americanos, têm desfavorecido a formação das ciências humanas.
Com isso, essas novas metodologias assimiladas pela sociedade têm se tornado uma forma de manter a ilusão da liberdade e da singularidade de cada um, em vez de compreender e explicar o que há de ilusório nessas ideias (FIGUEIREDO, 1997). É assim que a psicologização da vida quotidiana tem nos levado a pensar o mundo social e a nós mesmos a partir de uma visão bem pouco crítica.
A vertente psicológica que se liga aos modismos popularizados tem servido para sustentar a palavra de ordem “cada um na sua, pensando os seus problemas e defendendo os seus interesses e a sua felicidade” (FIGUEIREDO, 1997, p. 87). Numa mistura de concepções do senso comum ou baseadas em teorias psicológicas, em pressupostos humanistas sobre a liberdade do homem e num estilo de administração empresarial nitidamente comportamentalista, esse discurso (que soa como o de um pastor protestante americano, e isto é mais do que uma coincidência) prega um paradoxal reforçamento do “eu” com sua submissão a um conjunto de regras de gerenciamento da própria vida. Segundo este autor, a industrialização da ciência acarretou o compromisso desta com os centros de poder econômico, social e político, os quais passaram a ter um papel decisivo na definição de prioridades científicas.
Os coaches não são reconhecidos pelos Conselhos Profissionais, conforme Nota do CRP 01 (2019): “Não reconhecemos o Coach e o Analista Comportamental como profissões haja vista que suas práticas interferem diretamente nas práticas profissionais da Psicologia (Art. 13º da Lei 4.119/62)”. Também não constam na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e Previdência (BRASIL, 2022).
No entanto, a força do apelo é grandiosa, bem como os interesses que subjazem essas iniciativas. A questão é que, com ou sem formação por lugares coachianos, isso que se propõe tem se mostrado um tanto catastrófico. Justamente por não haver estudo sistematizado daquilo que somente o curso de Psicologia em sua abrangência tem a oferecer. Os coaches se utilizam de conhecimentos advindos da Psicologia, de forma duvidosa e clandestina, colocando em risco a população (CRP 01, 2019).
Assim, as proposições da moda não preenchem exigências complexas e pesadas para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina, ao contrário, pertencem a uma massa de coisas ditas, do surgimento de enunciados desprovidos de estudo e de escuta técnica qualificada.
No mundo em que vivemos, ou ainda, sendo humanos como somos, o trabalho do psicólogo está longe de ser desnecessário e extinto, ainda que a onda mercadológica do momento ofereça produtos ingênuos e sem discernimento para abordagem das questões humanas. Na ótica das ciências da gestão, porém, o trabalho é desconectado de um sentido político, de uma realidade histórica, onde os trabalhadores não são seres humanos, são recursos humanos.
Conforme CFP (2019) é preciso fundamentar sua atuação profissional, obrigatoriamente, em conhecimentos, técnicas e instrumentos psicológicos reconhecidos cientificamente; construir argumentos consistentes da observação de fenômenos psicológicos; empregar referenciais teóricos e técnicos pertinentes.
As “novas metodologias” utilizadas na contemporaneidade no campo da saúde mental mostram-se, em última análise, como mecanismos de domínio psicopolítico do trabalhador ou de manipulação psicológica como diria o professor Roberto Heloani (2003). O nosso papel de analistas de saúde comprometidas (os) com a ciência e o conhecimento é o de incomodar. Feliz dia do incômodo e, também, feliz dia do psicólogo.

Referências

BRASIL. Classificação Brasileira de Ocupações. Disponível em: http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/downloads.jsf Acesso em: 04 de agosto de 2022.

BRASIL. Lei Nº 4.119, de 27 de agosto de 1962. Dispõe sobre os cursos de formação em psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo. Disponível em: https://transparencia.cfp.org.br/wp-content/u ploads/sites/19/2017/05/Lei-4119_1962.pdf Acesso em: 24 de julho de 2022.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução CFP Nº 010, de agosto de 2005. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, 2005.

_________. Conselho Federal de Psicologia. Resolução Nº 06 de 29 de março de 2019. Institui regras para a elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o) no exercício profissional e revoga a Resolução CFP nº 15/1996, a Resolução CFP nº 07/2003 e a Resolução CFP nº 04/2019.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). A Psicologia brasileira apresentada em números. Disponível em: http://www2.cfp.org.br/infografico/ quantos-so mos/. Acesso em: 26 de julho de 2022.

CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DO DISTRITO FEDERAL (CRP 01/DF). Nota orientativa sobre a prática de coaching. Comissão de Orientação e Fiscalização (COF), 26 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.crp-01.org.br/page_3908/Nota%20t%C3%A9cnica%20sobre%20a %20pr% C3%A1tica%20de%20Coaching Acesso em: 04 de agosto de 2022.

Eu, Daniel Blake; Direção: Ken Loach. Roteiro: Paul Laverty. Reino Unido, 2017. (101 min).

FREUD, S. A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial (1926). In: ______. Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). Obras Completas v. 17. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1926/2014.

FIGUEIREDO. L. C. M.; SANTI, P. L. R. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 1997.

HELOANI, J. R. Gestão e organização do capitalismo globalizado: história da manipulação psicológica no mundo do trabalho. São Paulo: Atlas, 2003.

O OUTRO LADO DO PARAÍSO; Criador: Walcyr Carrasco Direção: André Felipe Binder e Mauro Mendonça Filho. TV Globo. Brasil, 2017 (172 episódios).

SANTOS, B. de S. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez Editora, 1987/2018.

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Arrumar a casa de trabalho

Desde a mudança de prédio do Cerest Goiás, no final de 2021, atravessamos a avenida 136 que delimita o setor marista do setor sul de Goiânia, trazendo quilos de história na forma de caixas, documentos, pastas, e materiais diversos que nos acompanham há vários anos. As coordenadoras das áreas de saúde do trabalhador solicitaram os préstimos de “santa ajuda” de nossa equipe para arrumar os armários da nossa casa de trabalho. 

Comecei a empreitada, lembrando de uma conversa com colegas de trabalho sobre nossos traços obsessivos necessários para um trabalho de triagem e revisão. E é bem dizendo tal característica, que incentivamos este trabalho de arrumação que precisa de uma disponibilidade, para lançar mão da organização nossa de cada dia. Mãos à obra para enfrentar o caos dos materiais desconhecidos e esquecidos.

 Desde 2015 trabalho no Núcleo de Psicologia do Cerest com o agravo de transtornos mentais relacionados ao trabalho, e como psicanalista, posso dizer que encontramos diversos conteúdos que quis chamar de “demandas reprimidas”. Escutar o que está no interior dos armários vai dando notícias da necessidade de reestruturar o serviço, aumentar a equipe, planejar a vida de trabalho. É preciso dar ouvidos para questionar o que foi escrito e não está mais atual, para compreender como o atual foi mudado em função do passado construído.

Abrimos as comportas dos armários e um mundaréu de coisa misturada vai surgindo. A arrumação faz saber que muita gente boa de serviço já fez trabalhos fundamentais dos quais se não tivéssemos notícias, estaríamos perdendo tempo com o retrabalho. Para usar a metáfora da psicanálise diria que o retorno do recalcado implica numa compulsão à repetição, às vezes por profundo desconhecimento da existência de algo que está lá, mas não se sabe ainda. 

Mudança pede mudança. Para (re)existir o corpo precisa estar em movimento. O pedido das coordenadoras conclamou a exumação de corpos de papeis, que puderam ter sua devida destinação, muitos para a reciclagem, outros para o “arquivo morto”. Outros mereceram a necessária ressuscitação, sua digitalização, idealizamos a criação de espaços físicos específicos para cada agravo à saúde do trabalhador. A nomeação de cada espaço, feita pela simples etiquetação nas estantes dos armários, permitiu dar visibilidade aos assuntos que temos guardado. A tarefa parece enorme quando temos armários abarrotados. E é mesmo, por isso, fazer um “intensivo”, “uma força tarefa” pode ser uma alternativa, mas a proposta de uma pasta por dia também funciona. O importante é que mesmo com pouca disponibilidade de tempo, a proposta de cuidar dos guardados não se perca em meio às diversas demandas que cada serviço apresenta.

As atribuições do Cerest  previstas na Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora vão ganhando nova história no coração do Brasil, ao fim e ao cabo da arrumação, que bem da verdade, sempre deve estar em manutenção. Saber o que um serviço de saúde possui e guarda, revela sua história enquanto instituição e a história de seus trabalhadores, suas iniciativas e desistências. Muitas são as razões para as mudanças nas equipes, e para o redirecionamento dos trabalhos. De toda forma, há uma perda considerável quando servidores responsáveis por determinados serviços mudam de local de trabalho, se aposentam ou ainda, se  demitem. Pior ainda, é quando os que querem continuar são impedidos em função de contratos temporários precarizados, suas produções são interrompidas. 

Tenho a impressão de que por esses e outros motivos,  muitos dos trabalhos em saúde do trabalhador são “crianças engatinhando”, que quando deixadas sozinhas, sem a presença de seus responsáveis, atrasam o começo de seu caminhar, manquejando desequilibrados sem onde se apoiar. Assim como a educação permanente que defendemos em saúde, o acompanhamento do trabalho quando inoperante, gera perda de autonomia e não se desenvolve, pois vão lamentavelmente perdendo a força das pernas.

Serviços como os que temos na jovem história do Brasil, também não deveriam ser abandonados. O trabalho só acontece com a força dos que podem e querem trabalhar. Quando não há concurso para admissão de novos trabalhadores, quando o dimensionamento da demanda é ignorado, quando não há respeito e valorização do trabalhador, os serviços vão ficando deficitários e em alguns aspectos tornam-se incapazes de cumprir o combinado.

Os trabalhadores que se mantém, pelos variados motivos, seguem investindo, em suas frentes de trabalho, aumentando o espaço que precisamos para guardar, ainda que temporariamente, uma história que deve ser lembrada aos jovens servidores que virão depois que nós tivermos ido embora. Esse texto tem a intenção de compartilhar essa experiência, de propor a escrita da história de cada Cerest, único em cada região. 

Quando escrevemos, algo se imortaliza pela letra compartilhada. Sabemos, uma de nossas poucas certezas, que mais cedo ou mais tarde, iremos todos morrer, mas o SUS não pode morrer. Quando podemos transmitir (BARROS, 2007), mais que nossos genes, mas a preservação de experiências de importância histórica, neste caso, da conquista e defesa do SUS em ações singelas, seja a de arrumação de um armário que ganha em seus guardados, espaço e nome, confiamos no trabalho do impossível, que forjamos pela via da renovação das propostas, de planos, projetos e de ações que podem se perpetuar ao longo do tempo.

Texto publicado originalmente em https://renastonline.ensp.fiocruz.br/blogs

Referências

BACHELARD, Gaston. La Poétique de l’espace. Troisième Edition.  Presses Universitaires de France. Bibliothèque de Philosophie Contemporaine, 1961. 

BARROS, R. M. M. A escrita feminina. In: COSTA, A.; RINALDI, D. (org.). Escrita e psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. de Freud: UERJ, Instituto de Psicologia, 2007.

GOES, M. Santa ajuda. Canal GNT. Disponível em: https://gnt.globo.com/programas/santa-ajuda/ Acesso em: 15/02/2022. SANTOS, R. Força para continuar lutando em defesa da Saúde. In: O SUS não pode MORRER. Revista Nacional de Saúde. Edição 05. Ano 2. Set/Out 2017. 

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A importância do nome próprio do trabalhador: por uma política linguística de respeito

Se é a fonte social do sofrimento a que mais devasta o ser humano, seguimos com Freud (1930) na perspectiva de tornar a clínica da saúde mental do trabalhador um instrumento de mitigação dos danos trazidos pelos vícios de linguagem cometidos nas relações interpessoais. Questões como a importância do nome próprio podem estar ligadas a diversos aspectos presentes na definição de casos de transtornos mentais relacionados ao trabalho (TMRT), que envolvem uma série de sintomas e diagnósticos dos mais variados (Brasil, 2019).
Assim, o trabalhador que tenha manifestado quaisquer das descrições de casos de TMRT, não deve ser chamado de “chorão/chorona”, “medroso”, “complicado” ou “problemático”, nem rotulado por quaisquer diagnósticos. A defesa pela vida passa pela defesa do nome próprio, que também é o nome social escolhido pelo próprio trabalhador. Na falta deste documento ou desta informação, pergunte ao colega como ele prefere ser chamado. Pensar e rever nossas práticas discursivas nos ambientes de trabalho são medidas de prevenção aos possíveis agravamentos da saúde mental dos trabalhadores.
Freud (1901/1996) ao escrever sobre os lapsos da fala demonstrou que mesmo sendo aparentemente simples, eles podem ser explicados pela interferência de uma ideia meio suprimida que está fora do contexto intencionado. Esquecer o nome de alguém está dentre os vários exemplos que cita em Sobre a Psicopatologia da vida cotidiana. A distorção de um nome, quando intencional, equivale a um insulto (idem, p. 94), os floreios arrogantes, erros propositais na articulação fonética do nome, a incapacidade de diferenciar nomes de colegas, a substituição de um nome por outro, cuja carga afetiva se caracteriza por tons de exagero, sarcasmo ou ambiguidade (“querido”, “querida”) ou apelidos não-consentidos caem na mesma esparrela.

A distorção de um nome tem o mesmo sentido de seu esquecimento; fica apenas a um passo da amnésia completa. Freud cita o trabalho de Ernest Jones para dar relevo ao fato de que “não há meio mais seguro de afrontar alguém do que fingir ter esquecido seu nome; assim se transmite a insinuação de que a pessoa tem tão pouca importância a nossos olhos que não damos ao trabalho de lembrar seu nome”. Freud conta que alguém uma vez disse “Freuder” em vez de “Freud”, por ter pouco antes proferido o nome de Breuer, e que, em outra ocasião, falou do método de tratamento “Freuer-Breudiano”, provavelmente era um colega não muito entusiasmado com o trabalho desenvolvido por Freud e Breuer. O exemplo é antigo e também muito atual.

Em fevereiro deste ano, foi veiculada a notícia de que a prefeitura de Goiânia terá de pagar a indenização no valor de 20 mil reais à servidora que sofreu assédio moral no trabalho, chamada de “doentinha” e “bichadinha” (Silva, 2022).
Não dizer o nome próprio das pessoas expressa o não-dito da falta de entusiasmo em realçar a diferença que cada trabalhador traz em sua subjetividade, que em última instância significa desumanizar o trabalhador. Veja como as expressões verbais direcionadas a um trabalhador podem configurar-se em condutas de assédio moral no trabalho (HIRIGOYEN, 2004): generalizar nomes ou apelidos, chamar todos os trabalhadores de “Zé”, por exemplo, ou referir-se com tom pejorativo por meio de expressões como “chão-de-fábrica” ou “os peões”, “badecos”, e até mesmo a generalização « pessoa », cuja categoria remete a um dispositivo excludente já que traz a ideia – proveniente da origem romana do vocábulo teatral persona – é de que alguém se reduziria a uma máscara sobreposta ao rosto.

O nome próprio, segundo Gori (1998, p. 138) “não tem que significar” nem mesmo um adjetivo qualquer, pois eles remetem a eles mesmos. Fazer significar um nome é o mesmo que cometer um sacrilégio, transgredir um tabu, realizar um sacrifício que desnuda o caráter insustentável e evanescente das marcas de nossa identidade e filiação.

É no mínimo elegante o alerta para o uso de categorias que tomam o todo da identidade de um trabalhador por uma parte das suas características ou vínculos de trabalho, tal como se diz que fulano é aquele deficiente, doente, comissionado, ou estagiário etc., como se o sujeito fosse reduzido a uma determinada condição ou particularidade de sua existência.

Quando um trabalhador passa por alguma situação em que sua produtividade ou sua disponibilidade para o trabalho sofre um decréscimo, por vezes ele recebe a pecha de “problema”, pois aquele que o julga sem conhecer sua história, desconsidera – por ignorância – as circunstâncias vividas pelo trabalhador e os mecanismos, inconscientes ou não, utilizados para dar conta de lidar com o sofrimento.
Outra distorção comum, em especial no mundo empresarial, é a substituição de “trabalhador” por “colaborador”, “associado” ou outra terminologia que enfoque o espírito participativo, ao invés da pirâmide hierárquica (Gosdal, 2016, p. 100) ou da diferença de classes. Um dentre tantos modismos de mau gosto, que subsume o peso que este nome tem enquanto conceito, cidadania, política pública, direitos humanos e trabalhistas. Trabalhador é, segundo a Portaria de Consolidação Nº 5, de 28 de setembro de 2017, todo aquele que independentemente de sua localização, urbana ou rural, de sua forma de inserção no mercado de trabalho, formal ou informal, de seu vínculo empregatício, público ou privado, autônomo, doméstico, aposentado ou demitido. Todo trabalhador é objeto e sujeito da Vigilância em Saúde do Trabalhador.
Seis anos depois de escrever a Psicopatologia da Vida Cotidiana, Freud incluiu uma grande nota de rodapé, que prefiro citar literalmente:

Pode-se também observar que são especialmente os aristocratas que se inclinam a distorcer os nomes […] a quem consultam, donde podemos concluir que, em seu íntimo, eles os desprezam, apesar da cortesia com que costumam tratá-los. (…) poucas pessoas conseguem evitar uma ponta de ressentimento ao descobrirem que seu nome foi esquecido, particularmente quando tinham a esperança ou a expectativa de que ele fosse lembrado (…) já que o nome é parte integrante da personalidade (Freud, 1901[1907]/1996, p. 95).

Sabendo do contexto sócio-histórico da sociedade vienense em que Freud viveu, entendemos a identificação dos aristocratas. No Brasil, em nossa realidade contemporânea sabemos que as sutilezas da manipulação psicológica do mundo do trabalho extrapolam o uso pelos aristocratas e se estendem em quaisquer status sociais, aparentemente onde a própria subjetividade dos agressores em potencial esteja fragilizada em sua própria auto-afirmação.
Por outro lado, Freud faz lembrar, a partir das considerações de Jones, que poucas coisas são mais lisonjeiras para a maioria das pessoas do que serem cumprimentadas pelo nome próprio. E cita o caso da grata surpresa de quando um personagem importante como Napoleão se faz mostrar como um grande líder, mestre na arte de bem relacionar-se com seus recrutas; em meio à desastrosa campanha da França, em 1814, ele deu uma surpreendente prova de sua memória nesse sentido. Numa cidadezinha perto de Craonne, lembrou-se de que conhecera o prefeito De Bussy há mais de vinte anos. De Bussy encantado com o reconhecimento pôs-se imediatamente a serviço de Napoleão com zelo extraordinário.
No contraponto da atitude de Napoleão, temos diversas condutas e escolhas nas relações interpessoais cujos registros psíquicos vão se acumulando para o desencadeamento de casos de TMRT em suas mais variadas possibilidades de manifestações (Brasil, 2019). Estamos falando do mais imediato contato com o trabalhador, ou seja, o vocativo utilizado para lhe convocar, que ao ser substituído ou apagado, desvaloriza o nome próprio, despersonalizando o trabalhador, reduzindo-o à subordinação da escolha do outro por um nome que não lhe é próprio.
Reiteramos o canal de comunicação com o Núcleo de Psicologia do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador para demandas de supervisão e suporte técnico em ações e projetos de vigilância em saúde mental do trabalhador (nucleodepsicologiacerestgo@gmail.com).
Sugiro ainda que se busque um psicanalista para empreender junto a você a sua análise pessoal, acompanhada de seus atos, falhos ou intencionais. Haja vista que os nomes e referências ditos ou não-ditos, dizem mais de quem os pronuncia ou os relega ao apagamento, e mais cedo ou mais tarde, as formações de compromisso retornam e reclamam seu justo lugar.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação Nº 5, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas sobre as ações e os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde. Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 190, 3 de outubro de 2017. Seção 1, p. 360.
_______. Ministério da Saúde. Manual Técnico do Curso Básico de Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde; Fundação Oswaldo Cruz. Brasília, 2018.
_______. Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de Saúde Ambiental, do Trabalhador e Vigilância das Emergências em Saúde Pública. Nota Informativa Nº 94/2019 – DSASTE/SVS/MS. Orientação sobre as novas definições dos agravos e doenças relacionados ao trabalho do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Brasília, 2019.

FAIMAN, C. J. S. Saúde do Trabalhador: possibilidades e desafios da psicoterapia ambulatorial. São Paulo: Casa do Psicólogo. Coleção Clínica Psicanalítica, 2012. 

FREUD, S. Lapsos da fala. In: _____. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume VI. Rio de Janeiro: Imago, 1901/1996.
_______. O Mal-estar na civilização. In: ______. O Mal-estar na Civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. (1930-1936). Obras completas v. 18. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1930/2010.
HIRIGOYEN, M. F. Malaise dans le travail: harcèlement moral démêler le vrai du faux. La découverte: Paris, 2004.

GORI, Roland. A decisão do nome. In: GORI, Roland. A prova pela fala. Sobre a causalidade em psicanálise. Tradução de Mirian Giannella. São Paulo: Editora Escuta. Goiânia: Editora da UCG, 1998, p. 121-139.

GOSDAL, Thereza Cristina. Histórico das relações de trabalho e seu reflexo na organização e gestão do trabalho: do assédio moral ao assédio moral organizacional. In: MACÊDO, Kátia Barbosa et al. Organização do trabalho e adoecimento: uma visão interdisciplinar. Coletânea de artigos. 6º Congresso Internacional sobre Saúde Mental no Trabalho. Goiânia: Editora PUC GOIÁS, 2016, pp. 93-109.

MATOS, Andityas Soares de Moura Costa; COLLADO, Francis Garcia. Prólogo. In: ______.Para além da biopolítica. São Paulo: sobinfluência edições, 2021. 

VERDI, M.; BUCHELE, F.; TOGNOLI, H. A educação em saúde no contexto da atenção básica de saúde. Educação em saúde [Recurso Eletrônico]. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2010, p. 25-41.

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Mulheres (mães) e saúde mental nos trabalhos – Parte I

“Fulana é como uma mãe pra mim aqui no trabalho”, essa mesma fulana trabalhadeira, que oferece afeto e serviços, chega em casa e encarna a matriarca que cuida de tudo. Aos poucos a carga fica muito pesada e ela não consegue sustentar tantos trabalhos. A angústia proveniente de um local de trabalho afeta o sujeito por onde ele for, seja o trabalho de dentro ou fora de casa. Em decorrência da pandemia, o limite dentro-fora de casa fica tênue especialmente para os que passaram a exercer suas funções em regime de teletrabalho.

No consultório escuto as queixas de mulheres que trabalham “como se fosse uma mãe” para o marido. O “como se” é vivido de diversas formas de maternagem, seja na expectativa e cobrança dos cônjuges, seja no cumprimento desta expectativa pelas mulheres que tentam “fugir” ao conflito de não corresponder mais às expectativas. Os desejos, os direitos, e os projetos de vida das mulheres são postos em questão.

É como se houvesse um pacto silencioso pré-nupcial em que o “combinado” de que a mulher continue sendo a dona da casa e de todas as suas responsabilidades. Tendência esta que a atual geração está tentando romper. As funções maternas são importantes, mas se exercidas em exclusividade consomem qualquer sujeito além da conta. Porque é isso: a conta não fecha sem a divisão dos trabalhos não-remunerados e ou não-reconhecidos.

Noto que grande parte do sofrimento está enraizado em crenças e valores que formam a base cultural brasileira: machista, sexista e classista. Nossa herança histórica delegou às mulheres o lugar de objetos sexuais para os homens e de facilitadoras de condições propícias para o bem-estar de todas as pessoas.

Essas raízes culturais foram plantadas no Brasil a partir de 1850, com a criação da Junta de Higiene Pública do Rio de Janeiro, época em que o discurso médico ganha força na proposta de controlar e prevenir doenças de salubridade e mortalidade na formação das cidades. Nessa perspectiva o discurso médico delega à mulher um novo estatuto dentro da família. A mulher que, na época colonial, estava submetida totalmente ao poder do marido, ao lado dos filhos e escravos, passa a ser valorizada como esposa e mãe, ganhando maior autoridade e responsabilidade pelo espaço doméstico, o que relativiza o poder do marido no núcleo familiar.

Essa mudança visou, enquanto projeto social, basicamente a colocar a assistência aos filhos como atribuição materna, já que preservar a infância era uma das estratégias para o controle da mortalidade. O discurso médico com sua racionalidade produz argumentos que devem provar que a mãe é a pessoa mais adequada para cuidar das crianças. “Nascida para o casamento e para a vida doméstica”, o valor da mulher estava na sua condição maternal (VIEIRA, 2002, p. 30).

A partir da segunda metade do século XX, a multiplicidade nos papéis das mulheres (e homens) e suas respectivas funções sociais começam a mudar a partir da inserção das mulheres no mercado trabalho (SANTOS, 2016). A saúde mental das mulheres no trabalho só pode ser entendida a partir da contextualização de várias dimensões da vida, por exemplo, o trabalho que realizam no âmbito doméstico. Se por um lado a realização profissional das mulheres tenha melhorado sua autoestima, o acúmulo de papéis, o aumento do número de família monoparentais chefiadas por mulheres e a discriminação em relação ao gênero têm trazido maiores índices de transtornos psicológicos em mulheres quando comparadas com homens (DINIZ, 2004).

É preciso salientar que o maior número de famílias monoparentais são chefiadas por mulheres negras, que padecem pela carência financeira e falta de suporte social para o cuidado dos filhos. As mulheres sofrem pelo fato dos filhos permanecerem longas horas sozinhos e expostos a perigos presentes nos locais de moradia. A longa jornada de trabalho, associada ao estresse de dormir pouco e passar um número grande de horas se deslocando da periferia para o local de trabalho, são também fatores que prejudicam a saúde física e mental.

É importante mencionar ainda a exposição a situações de risco no próprio trabalho, como é o caso do assédio frequente nas relações entre patrão-empregada. As mulheres pobres, desamparadas, imigrantes, refugiadas, indígenas recebem pouca atenção em todo o continente americano. A ameaça da perda de emprego no caso de gravidez ou a dificuldade de acesso à promoção ou mesmo rebaixamento de cargo são fontes de pressão sobre as mulheres que acabam postergando o casamento ou a maternidade, ou até mesmo abdicam destes papéis em função do investimento no projeto profissional (DINIZ, 2004). Tais condições psicológicas, sociais e institucionais podem trazer prejuízos sérios à qualidade de vida.

As mulheres executam mais tarefas familiares que os homens, mesmo quando ambos os parceiros trabalham em tempo integral. As pesquisas de Rexroat e Sheman (1987) citadas por Bee (1997) mostram que a carga semanal de trabalho delas possui várias horas a mais – o que intensifica o conflito proveniente da interação casamento-família-trabalho e os impactos na saúde mental – uma vez que os papéis sexuais tornam-se mais tradicionais após o nascimento de um filho. 

Na vida em casal, apenas cerca de ⅕ do trabalho doméstico é realizado pelos homens. O mais curioso, é que sentindo-se “encarregadas”, repetindo um lugar de subalternidade em relação ao trabalho doméstico, muitas mulheres sobrecarregadas, sentem-se agradecidas pela parca “ajuda” realizada pelos cônjuges, muitas das vezes a custa de desgastes na relação, em função dos “pedidos reiterados de companheirismo”.

Embora as mulheres ainda apresentem índices de mortalidade mais baixos do que os homens na maioria das áreas, conforme elas entram na força de trabalho essa realidade muda. A tendência a procurar atendimento preventivo de forma mais frequente que os homens pode interferir na disponibilidade de informações de saúde, cujos dados apontam índices mais elevados de sintomas (Brown, 1995). O índice de mortalidade materna no Brasil, segundo Diniz e De Bolle (2020) é um indicador importante que revela a desigualdade na economia do cuidado com as mulheres.

Três fenômenos contemporâneos que têm um impacto profundo sobre a saúde mental da mulher: a violência, o exercício de múltiplos papéis e a “feminização da pobreza” que ocorre em todo mundo (DINIZ, 2004). O caráter informativo ou denunciatório desta temática tem como objetivo provocar mudanças nas decisões referentes às políticas públicas (na maior parte das vezes representadas por homens). Trata-se de incentivar uma transição de valores em nossa cultura, incluindo investimento financeiro em políticas para promover a equidade de gênero.

Dentre algumas ações possíveis, propõe-se inserir na agenda de discussões a extensão do tempo conferido para licença paternidade, isonomia salarial (a renda média das mulheres não alcança 60% do rendimento médio dos homens) e promoção do cuidado para com as mulheres. É preciso desconstruir o estereótipo de exclusividade da função de cuidadoras para as mulheres.

A paternidade não pode ser reduzida ao papel de provedor financeiro e omissão de participação na rotina. A realidade vivida na Finlândia no que se refere às políticas relativas à maternidade e vida familiar é ainda um sonho para o Brasil, que muito precisa ainda desenvolver a cultura da economia de cuidado. Questionar os modelos restritivos de casamento, família, maternidade e paternidade é função de cada cidadão e atinge diretamente a saúde das mulheres.

Os tempos de trabalho precisam ser revistos, pois a cada dia a tarefa de conciliar cuidados dos filhos, consigo própria e com as demandas profissionais e conjugais tem se tornado insustentável. A não-reprodução de situações de dominação e opressão contra a mulher passa pela escuta de nossa cultura. A notificação de casos suspeitos e ou confirmados de transtornos mentais relacionados ao trabalho e as ações de vigilância em saúde do trabalhador deve considerar o gênero como categoria de análise.

À medida que o desemprego aumenta – questão de saúde – as mulheres são duas vezes mais prejudicadas que os homens. Dos casos de adoecimento psíquico notificados em Goiás, 79% foram categorizados como pertencentes ao sexo feminino. Nesse sentido, o gênero é uma categoria de análise importante para discutirmos a situação de saúde em Goiás, que ratifica – a partir dos dados do Sistema Nacional de Agravo de Notificações – SINAN (COUTINHO & SANTOS, 2021; DINIZ, 2004) – a presença de transtornos de humor, transtornos neuróticos, do estresse e somatoformes nas trabalhadoras de Goiás e também do Brasil. É preciso mais cuidado para as trabalhadoras e mães que historicamente ficam sozinhas com a carga do cuidado com outro ser humano. A vivência da maternidade é um trabalho e deve ser respeitada e valorizada, tornando possível estar no mundo não só como mulheres cuidadoras, mas mulheres cuidadas.

Referências

BEE, Helen. Desenvolvimento Social e da Personalidade no início da vida adulta. In: _____. O ciclo vital. Tradução Regina Garcez. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, pp. 412-452.

BROWN, Fredda Herz. O impacto da morte e da doença grave sobre o ciclo de vida familiar. In: Carter, Betty; McGoldrick Monica. As mudanças no ciclo de vida familiar: Uma Estrutura para a Terapia Familiar. Tradução: Maria Adriana Veríssimo Veronese. 2 ed. Artmed, 1995, pp. 393-414.

COUTINHO, Ana Flávia e SANTOS, Elise Alves. (2021). Análise de dados do SINAN de transtornos mentais relacionados ao trabalho. Disponível sob solicitação para: nucleodepsicologiacerestgo@gmail.com

DINIZ, Débora; DE BOLLE, Monica. As Mulheres na Pandemia e a Economia do Cuidado. Transmitido em 03/08/2020. Acesso em 23/03/2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uxdh2Pxi4es

DINIZ, Gláucia. Mulher, trabalho e saúde mental. In: CODO, Wanderley. (org.). O trabalho enlouquece? Um encontro entre a clínica e o trabalho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. pp. 105-138.

SANTOS, Elise Alves. Novos tempos para os homens. Revista Urologia em Goiás. Ano 1, nº 2, maio/julho de 2016, pp. 11-12.

VIEIRA, Elisabeth Meloni. A medicalização do corpo feminino. Antropologia e Saúde.  Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002, pp. 84.

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Minhas impressões sobre a neuropsicanálise

Voltando de Paris sem ter tido a chance de escutar Mark Solms por lá em uma conferência de poucos lugares, intitulada “O espírito, o cérebro e o mundo interno”, que seria discutida por René Roussillon, fiz então, em abril de 2018, inscrição para o ainda mais chamativo subtítulo “Imunidade – memória – trauma” da Jornada de Psicanálise organizada pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, seguido do workshop de “Educação em Neuropsicanálise” a ser ministrado por Mark Solms, na época presidente da Associação de Psicanálise da África do Sul.
A expectativa de que Mark Solms fosse falar em francês e articular os temas da imunidade, memória e trauma entre as neurociências e a psicanálise logo foi substituída pela impressão da dominação do discurso das neurociências proferido em inglês. Solms se disse freudiano, “só queria ver as coisas mais claramente”. O que aconteceu foi basicamente uma comparação da teoria psicanalítica da mente com as partes do cérebro. Sendo que Solms defendia a consciência do id, localizado no tronco cerebral! E que, toda consciência deriva do tronco encefálico superior. A consciência não vem da superfície, ela “sobe de baixo pra cima”, dizia ele considerando o posicionamento cerebral.
Solms afirmou que a neuropsicanálise não propõe uma nova escola de psicanálise, mas pretende ligar a psicanálise à neurociência. Ele diz que quer agregar algo à psicanálise, mas não quer tomar a psicanálise como uma neurociência. Tenho minhas dúvidas quanto a isso. Segundo ele, hoje temos métodos para estudar a mente que não estavam disponíveis na época de Freud. Ele recomenda algumas mudanças, que não são radicais para atualizar a teoria e tornar o trabalho clínico mais fácil, além de facilitar o entendimento aos psiquiatras e neuropsicólogos de como trabalhamos. Nesse momento, eu não queria ter sido incluída naquele “nós”, pois não me vejo trabalhando a temática do adoecimento do ser humano, de forma tão naturalizada. Mas para ele era muito natural “levar a mente para a neurociência, trazer ganhos para a psicanálise com a neurociência, testar o que não é possível na psicanálise. Trazer o progresso para a psicanálise demonstrando coisas de maneira científica, trazer aos psicanalistas pontos de vista que as neurociências oferecem.” (sic).
Aquele homem de grandes dimensões queria dar uma dimensão “científica” à psicanálise e mostrar como Freud havia errado, pois o id seria fonte de toda consciência, uma vez que o córtex se torna consciente quando ativado. A consciência viria de núcleos sinalizados no mapa cerebral. De alguma forma, Solms queria mostrar que a diferente localização do inconsciente e do id traria implicações para a clínica psicanalítica. O presidente da Associação de Psicanálise da África do Sul, na oportunidade de sua conferência teceu comentários que “comprovam” ou “desatestam” afirmações de Freud. Em outro momento, Freud estava certo, pois a neurociência comprovou que não é preciso ter consciência para executar funções cognitivas. Por outro lado, Freud errou, repetia Solms, pois sendo o id fonte de toda consciência, o ego seria uma “parte da mente” que tenta reduzir a consciência do id, que aspira ser inconsciente.
“Quando a memória de longo prazo se torna consciente, proteínas se dissolvem”, Solms dizia seguro que a consciência promove a dissolução do estado de memória, sendo que cada memória são milhões de neurônios. Talvez aqui neste ponto a ideia de trauma, imunidade e memória pudesse ter sido desenvolvida. No entanto, os três dias de jornada citavam en passant, genericamente, as “maravilhas da neurociência não especulativa” sem articular a temática proposta.
Os termos psicanalíticos pareciam ser aos poucos substituídos: “conflito” por “problema não resolvido”; “reminiscências” por “memória” ou “predição baseada em experiências passadas”; “identificação” por “memória procedural”; “ação motora” por “solução automatizada”; “processo primário” por “automaticidade”, citando como o córtex – enquanto superfície – não precisa de consciência para fazer seu trabalho. É do tronco encefálico de onde vem a fonte consciente, emocional, dizia ele. Por isso que até mesmo crianças anencéfalas exprimem emoções. O “reprimido” não retorna, mas seu efeito.
Para Solms a ideia freudiana de que a biologia é uma terra de possibilidades ilimitadas é justamente o que o faz se autointitular freudiano. Cita o entendimento de Freud de que a subjetividade parte da natureza e que um dia seria possível falar de uma neurobiologia da mente que não pertence exclusivamente à psicanálise. A ênfase à determinação biológica era o foco. Ele não fala em pulsão, desacredita a pulsão de morte. Professando o que mais parecia sua nova religião, dizia acreditar que Freud deveria ter ampliado seu conceito de instinto de vida e explicou fazendo uma performance de corpo e voz com grunhidos como ocorre o prazer (que só existe quando se pode senti-lo) ou desprazer quando se aproxima ou se distancia do Nirvana, enquanto homeostase.
Solms seguiu sua apresentação citando que a teoria das pulsões era a parte mais incerta da teoria de Freud, mas a tecnologia poderia solucionar o problema de entendimento acerca de como os instintos operam. O localizacionismo parece fundamental à Solms, que estava sempre pronto a apontar (com seu laser point) o sistema pré-consciente – consciente em um lugar no espaço cerebral. Dentro da consciência no córtex, ela vindo da parte endógena do cérebro.
O neurocientista que fez formação em psicanálise, contou ter tido o mesmo analista de Anna Freud, e propôs sete necessidades emocionais instintivas do ser humano (instinto sexual, volúpia, nutrição, busca, raiva, medo, apego e brincadeira), defendendo a aprendizagem para conciliá-las. Solms considerou uma fragilidade de Freud o fato de “nunca ter certeza de como classificar as forças motrizes da mente”. Para Solms é necessário classificar e numerar os instintos emocionais homeostáticos supostos na mente. Segundo ele, este seria o objetivo para se avançar nos campos da psicanálise. Ele declara sua intenção primeira ao receber um paciente em seu consultório: saber de que emoção sofre o paciente, pois cada sentimento significa coisas diferentes.
Neste ponto Solms confessou que sua preocupação em classificar os instintos não é a mesma em apresentar os nomes das estruturas cerebrais aos psicanalistas clínicos. Os questionamentos acerca de um exemplo de “instinto de preservar a vida diante de um leão” e outros mais dados por Solms são discutidos com a plateia. Dentre outros assuntos, os participantes de variadas escolas de psicanálise apresentaram perguntas que eu consideraria constrangedoras para ele. Algumas delas, a título de exemplo, fazia mais comentar, discutir, provocar que perguntar: remetiam à ideia de que o afeto é diferente da consciência de afeto (Green); sobre o aprendizado acerca do que é necessário para sobrevivência; sobre as representações (consciente e inconsciente) e para todas elas Solms, com uma tranquilidade assustadora, apontava regiões no cérebro para embasar sua resposta.
Solms apresenta dados de que lesões em determinadas regiões (lobotomia) e efeito de drogas psicotrópicas eliminam a ocorrência de sonhos, visto que é este trajeto no cérebro que é suprimido quando se utiliza antipsicóticos. Nesse sentido, Solms demonstra a comprovação da regressão tópica da área motora para a visual que ocorre em pacientes que podem sonhar. Apresenta curiosos dados de hipnogramas de pacientes que não regridem, não sonham, mostrando a diferença da eficiência do sono pelo número de vezes que o paciente acorda com um despertar breve.
Acerca do afeto da dor e da sua diferença com a sensação somática da dor e da emoção, Solms afirma que a dor da perda psíquica é acionada na mesma região da dor física, ambas comparadas à mesma química ligada aos opióides. A regressão da dor mental para dor física nos sonhos (inusual) é explicada por um deslocamento que promove essa confusão que facilita a aceitação da dor e a torna menos penosa. Trata-se de conversão masoquista da dor objetal.
Informações como esta chamam atenção para quem não tem (ou tem muito pouca formação nas ciências neurais), mas como pensar a conversão masoquista sem a metapsicologia freudiana ou ainda entender a pré-psicanálise como uma ciência natural pouco desenvolvida? A crença ou a paixão pela potência tecnológica nos produtos da aparelhagem médica traçam um caminho que oblitera o reconhecimento de um olhar impotente diante do real do cérebro. Um olhar para o “Projeto para uma Psicologia Científica” de Freud e mesmo os demais textos freudianos considerados de cunho neurológico, merece o alerta para a consideração de que possuem desde muito cedo o propósito de articulação de conhecimentos adquiridos em suas pesquisas neurológicas e dos resultados de suas investigações na clínica das psicopatologias, articulação esta notável em obras posteriores. A teoria do psiquismo não prescinde completamente do caminho percorrido por Freud na neurobiologia.
De toda forma, Solms assume que tem uma receita, sabe como automatizar a receita. Receita de entendimento? Receita de tratamento? Penso que um discurso que se quer vendável mostrado nesta palestra e “workshop” de neuropsicanálise não são produtos que os psicanalistas mais críticos, ainda que dialogantes com as neurociências, queiram comprar.

Elise Alves dos Santos, 16/09/2020.

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É tempo de cuidar: a dica em prol da saúde mental

São 5:10 h da manhã, sábado. Não, eu não trabalho sábado. Muito menos preciso acordar regularmente nesse horário para cumprir algum compromisso. Mas é isso que aconteceu, após ontem eu ter sido questionada sobre a importância de se cuidar da saúde mental nesse momento. Esse é o horário  que costumo acordar durante a semana para “bater o ponto” às 7 h, quando meu corpo já vai despertando antes mesmo do despertador. O mesmo corpo que já foi acordado repetidas vezes ao longo de mais de 10 anos de serviço público. A história de trabalho fica marcada em nossos corpos, dominado pelo hábito de seguir normas. Mas aos sábados, não. Eu já ia dormir “pensando” que eu ia gozar de mais horas de sono, restabelecer a energia gasta durante a semana e era isso o que acontecia. Hoje me pego, após 15 anos de experiência no atendimento a pessoas estressadas, surtadas, angustiadas, sofridas com suas doenças pré-existentes, por situações de choques de gestão, a responder se é tempo de propiciar condições para realização de tratamentos contínuos para saúde mental. Meu inconsciente carregado de trabalho, me fazendo trabalhar, me pôs para acordar essa hora de sábado para tentar defender a saúde mental dos trabalhadores em tempo de pandemia.

Antes mesmo dos burburinhos da COVID-19, todos nós que atendemos na clínica sabemos que os horários pós-expediente, ou intervalos de almoço, são os horários mais disputados para quem solicita atendimento. Afinal, que patrão vai dispensar seu empregado por mais de uma hora por semana para ir à terapia? Sim, o deslocamento, o trânsito, a sessão de 50 minutos aproximadamente, o retorno, o trânsito de novo. Muitos desistem do projeto de cuidar de sua saúde psíquica porque tem casa e família para cuidar, academia para ir, enfim, são muitas frentes de trabalho e ocupação para além do emprego formal (ou informal). Isso nem sempre é resistência para começar um tratamento psicológico.

Com tantas coisas inéditas, absurdas, desamparadoras acontecendo, cada um vai utilizar dos mecanismos de defesa ou estratégias protetivas para tentar seguir uma rotina menos desconfortável no isolamento. Intuitivamente, muitos de nós já seguem as “dicas” nas quais eu mesma pesquisei para criar um material gráfico de cuidados de saúde mental na quarentena (obrigada Christian Dunker e Leilyane Masson). Mas seguir tais dicas, ainda que importantes para dar passos iniciais diante da mudança abrupta, são insuficientes no cotidiano em que cada um deve descobrir o que deseja fazer, o que pode fazer, o que consegue fazer.

Os bons conselhos, por melhores que sejam, podem funcionar como alimentos perecíveis próximos da data de vencimento. Você compra, usa rápido, porque sabe que dali a pouco não tem mais função de existir para você. Afinal, como começar um tratamento contínuo, que demanda tempo (pelo menos uma vez por semana) num sistema que não dá tempo para o que não seja diretamente produtivo para a empresa? A boa notícia é que os empresários, a duras penas e passos de tartaruga, estão entendendo que uma pessoa que não se cuida não tem condições de cuidar bem das funções que exerce no trabalho.

A psicoterapia e a psicanálise divergem desta proposta de aconselhamento diretivo, seja na forma de uma psicoterapia psicanalítica em que a função materna, de apoio, suporte, holding, esteja mais presente, ou ainda seja a psicanálise em “padrão ouro”, que nos proporciona insigths, uma maior aproximação com as raízes dos problemas, com nossa (e)terna compulsão a repetição e que nos põe a fazer melhores acordos com os dilemas vividos. Em qualquer uma dessas possibilidades, e até mesmo quando as duas vão coexistindo no processo de análise pessoal, é preciso tempo. Não basta ir lá na prateleira da saúde mental e pegar uma dica.

               Sem tempo para negacionismos, nosso corpo-psiquismo está também em estado de emergência, de alerta. A desorientação toma conta de todos. Uns mais, outros menos. Os que têm filhos, os que participam dos grupos de riscos, os idosos, e qualquer um tem motivos para se (pre)ocupar com o coronavírus e com uma nova rotina, com uma nova realidade em que somos justamente demandados a mudar hábitos para preservar a saúde. Não é só de lavar as mãos que o homem viverá, mas de toda palavra que ele possa expressar, cuidar, chorar, se apropriar e ressignificar. O tratamento psicológico, para quem nunca fez, vou explicar:  por mais breve que seja, precisa de uma periodicidade, de tempo e espaço, uma constância, que alterna presença e ausência, tem de ser assegurada.

Um intensivo de férias pode até ser uma alternativa para quem não tem tempo, mas a vida continua depois. Fazer terapia na quarentena é mais complexo ainda porque não estamos de férias, precisamos pensar e decidir uma série de ações no dia-a-dia. É justamente nesse momento tão delicado que começar um tratamento psicológico pode ser um excelente momento para iniciar os cuidados com sua saúde mental como projeto de vida. Lembrando que os períodos excepcionais, como o que vivemos agora, é tempo de crises, mas também de oportunidades para mudança. Sim, vai passar. Contudo, muito do sofrimento “congelado” na hora que precisamos agir, pode ficar ali guardado até uma hora que “vem do nada” em que ele pode “derreter” tempos depois que a poeira virulenta abaixar. Se antes da pandemia já precisávamos cuidar da saúde mental, agora mais do nunca, e depois, acredite, também!

O corpo dominado pela rotina, requerido a cuidar justamente de uma nova rotina, quer “dar conta do recado”, quer antecipar os riscos para evitá-lo. Estamos descobrindo também que o teletrabalho e o isolamento são realidades promissoras, com seus prós e contras, mas que em muitos casos, pode levar a trabalhar mais e também a perder a noção do tempo, acelerar. Isso não é uma regra, e vamos aprendendo a lidar (ou não!) com a singularidade de cada trabalhador, com seus valores incorporados, suas obsessividades, suas vontades de contribuir e às vezes até mesmo de serem “super-herois”, quando a maioria está apavorada, adoecida, enfim, nossos compromissos de excesso têm a ver com nossas configurações psíquicas prévias à pandemia, que vem acentuar nosso jeito de funcionar, jeito de trabalhar, jeito de adoecer. Sim, é preciso assumir a capacidade de repressão, de renúncia pulsional para fazer a civilização andar. Mas isso não nos torna o exemplo de profissional ideal para a saúde. Pode ser o ideal para um modelo que se apropria da força de trabalho do humano como se fosse outra coisa qualquer. Fingir que tudo está bem quando não está pode ser uma bomba-relógio. A pandemia trouxe várias questões, o que mais importa quando tudo importa? Sabemos que não podemos abraçar o mundo com as pernas, mas podemos cuidar dele, promovendo tempo e espaço para se cuidar da vida psíquica, pois é dela de onde vem nossa vontade de acordar, mas também pode ser dela, que abalada e ferida, pode-se chegar ao ponto de não querer mais levantar da cama.  

Há anos nossos pacientes nos perguntam se declaração de psicólogo pode ser aceita no trabalho. Nós fazemos os documentos necessários, afirmamos e informamos a importância do tratamento para o sujeito que nos procura. Mas e os empregadores? Quando estarão prontos para fazer sua parte, se o atendimento psicológico não puder acontecer durante o expediente de trabalho? Se não puder começar num momento de crise, então quando? Está na hora, com ou sem brechas na lei ou nas políticas das empresas, de forjar tempo e espaço para o cuidado com a saúde mental, de cuidar “de corpo e alma” de nosso maior patrimônio e matrimônio, que somos nós mesmos em nosso corpo-psiquismo. É tempo de cuidar para o humano, há tempos descuidado, não colapsar, para não ruir o sistema onde vive, trabalhando, trabalhando… É preciso que a atenção à saúde mental do trabalhador promova o trabalho psíquico de cuidado do trabalhador para que ele possa continuar a trabalhar, com segurança e qualidade para o trabalho, com segurança e qualidade para sua vida. Enfim, é tempo de cuidar! Elise Alves dos Santos, 04/04/2020, sábado de manhã.

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